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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

SOB A SOMBRA (2016): Resenha de filme

O persa/árabe Sob a Sombra (Under the Shadow, 2016) é um dos melhores filmes de terror que eu já vi. Assustador, com poucos clichês, ótimo roteiro e uma ambientação bastante diferente. A história se passa durante a Guerra Irã-Iraque, nos anos 1980, e envolve uma família iraniana em Teerã.

Enquanto o marido é convocado para servir como médico na linha de frente da batalha, mãe e filha ficam sozinhas em seu apartamento, em um pequeno prédio na capital iraniana. Logo Teerã começa a ser bombardeada e, apesar dos apelos do maridos para que a mulher saia da cidade e leve a filha para a casa de seus pais, ela insiste em permanecer em sua própria casa.

Em meio ao terror dos bombardeios, a criança começa a receber visitas de djinns, os espíritos malignos da mitologia árabe.

O mais interessante do filme é que, durante boa parte da história, a existência dos djinns ou não, são apenas um terror secundário. O que mais assusta é a possibilidade de uma bomba cair no edifício e explodir todo mundo.

No entanto, depois que míssil cai no prédio (mas não explode), todos os moradores decidem deixar o pequeno edifício, um a um, deixando apenas a mãe e a criança no prédio. E aí, a presença dos djinns começa a ficar bastante ostensiva e assustadora.

Os djinns demoram a aparecer no filme e essa foi uma estratégia muito legal do diretor/roteirista Babak Anvari, porque isso causa ainda mais agonia. Quando eles finalmente aparecem, mais para o final do filme, eles o fazem sob algumas formas diferentes. A mais assustadora delas é a que ele aparece sob a forma de uma mulher vestida com um xador (veste que cobre todo o corpo com exceção do rosto).

Há ainda alguns bons jump scares (aparições repentinas que te fazem pular do sofá).

O que mais chamou minha atenção no filme, no entanto, foi a ambientação dele, numa Teerã pós-revolução islâmica e durante o período da guerra. Foi muito interessante a forma como Babak Anvari associou a chegada dos djinns com a proximidade da morte trazida pelos bombardeios.

Um filme realmente imperdível para quem gosta de terror e de cinema estrangeiro. De zero a 10, nota 10.



DADOS DO FILME:
Título original: Under the Shadow
Subgênero: Espíritos malignos
Direção: Babak Anvari
Ano: 2016
País: Reino Unido/Qatar/Irã/Jordânia
Duração: 84 min

domingo, 15 de janeiro de 2017

Entrevista com o autor de CAIXA DE PÁSSAROS, Josh Malerman

Músico e escritor, Josh Malerman fala sobre o sucesso de Caixa de Pássaros e sobre seus dois novos romances

Um músico que encontrou seu lugar na literatura, Josh Malerman é, sem dúvida, um talento da literatura sombria norte-americana. Lançado em 2015, seu primeiro livro, Caixa de Pássaros mostra sobre um mundo pós-apocalíptico em que as pessoas enlouquecem e se matam ao olhar criaturas misteriosas que se espalharam pelo planeta. 

Aqueles que desejam sobreviver só conseguem fazer isso se fecharem os olhos sempre que forem para as ruas, o que significa viver como cegos. O livro foi um sucesso absoluto e, no mesmo ano, a editora brasileira Intrínseca decidiu  publicá-lo no Brasil. A gigante do cinema Universal Studios também resolveu investir na história e comprou os direitos cinematográficos da obra.

Em uma rápida entrevista por mensagens instantâneas, Josh Malerman falou um pouco sobre o sucesso de seu livro de estreia e sobre seus dois novos romances de terror, que serão publicados neste ano. Veja a entrevista:



FT: Vamos começar com a pergunta mais importante: com que se parecem as criaturas de Caixa de Pássaros? Como elas são?
JM: Hahahahaha... Para essa pergunta, você vai ganhar um rotundo: Quem sabe?! Eu sei tanto quanto a Mallory (protagonista do livro que nunca viu as criaturas). 

FT: Caixa de Pássaros foi seu primeiro romance, que foi absolutamente bem sucedido. Você foi publicado por um grupo editorial gigante (a Harper Collins), recebeu ótimas críticas, uma indicação para o prêmio Bram Stoker, foi publicado em vários países, como o Brasil, e ainda vendeu seus direitos para a produção de um filme para outra gigante, a Universal Studios. Você esperava um sucesso tão contundente em sua estreia na literatura?

JM: Seria pomposo dizer que eu sabia que tudo aconteceria exatamente assim. Apesar disso, essa foi exatamente a forma como vislumbrei tudo isso. Por muitos anos, eu vivi numa ilusão, uma falsa realidade em que eu conversava com agentes que não existiam, discutia com editores imaginários e sacava meus livros imaginários das estantes. Então, nesse sentido, eu já vivia essa vida, mas de uma forma imaginária. Então, com o contrato assinado para a publicação do livro, os detalhes da minha ilusão começaram a ser preenchidos. Agora eu conhecia o nome do meu agente, o som da voz do meu editor, as cores verdadeiras da lombada do meu livro. Então, ao mesmo tempo que eu não imaginava esse "sucesso contundente", eu me diverti com a versão fantasiosa dessa realidade muitos anos antes de ela realmente acontecer.

FT: Você esteve aqui no Brasil para a Bienal do Livro de 2015. Como foi sua interação com os fãs brasileiros?
JM: A interação com os fãs brasileiros e com meu editor (no Brasil) foram e são incríveis. Eu ficava virando para a minha noiva Allison e dizendo: "Dá pra acreditar que existem tantas pessoas apaixonadas por livros?". Foi emocionante, de uma forma inimaginável. E a Intrínseca (editora de Mallerman no Brasil) tem sido brilhante. Eles são uma coleção brilhante de pessoas brilhantes. Mal posso esperar pra voltar.

http://www.buscape.com.br/caixa-de-passaros-nao-abra-os-olhos-josh-malerman-8580576520

FT: Já tem alguma novidade sobre a produção do filme de Caixa de Pássaros?
JM: Até agora nada. Universal manteve sua decisão de continuar com o livro em suas mãos, mas não eles não falaram nada sobre avançar na produção do filme. Então... Vamos cruzar os dedos e continuar escrevendo enquanto isso.



FT: Você publicará dois romances neste ano. Um deles é Black Mad Wheel (que sairá também pela Harper Collins). É sobre uma banda que é convocada para pesquisar sobre um som maligno que aparece nos Estados Unidos. Pode falar um pouco mais sobre esse livro e quais são as semelhanças e diferenças para Caixa de Pássaros?
JM: Black Mad Wheel é parecido com Caixa de Pássaros em sua estrutura narrativa e no sentido de que algo assustador está acontecendo. Mas fora isso... eles são completamente diferentes. Estou muito empolgado com a possibilidade de Black Mad Wheel chegar ao Brasil e a outros países. Tem alguns momentos realmente tensos e sinistros e tenho muito orgulho dessa história.

FT: O outro romance é sobre um porco com poder de telepatia (On this the Day of the Pig) que será publicada pela Cemetery Dance. Como surgiu essa ideia? 
JM: On this the Day of the Pig não tem muito a ver com meus outros dois livros e é provavelmente o mais assustador entre os três. É sobre o dia em que Pearl (o porco) descobre que ele tem o poder da telepatia e decide usá-lo. Para esse livro, eu tive uma ideia de um jovem matando um porco em um cercado sem querer fazer isso. Era como se alguém estivesse dentro de sua cabeça mandando-o fazer aquilo. Eu gostei daquela ideia. Então, eu comecei a imaginar um outro porco naquele cercado... sorrindo... e eu percebi... nossa, o porco que estava sorrindo era o responsável por aquilo. Mas por quê? Daí o livro deslanchou.





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INTERVIEW WITH BIRD BOX AUTHOR, JOSH MALERMAN

FT: Let's start with the most important question: what do the Bird Box creatures look like?
JM: Hahahahaha... That one gets a big fat "Who knows?!" I know as much as Mallory does.

FT: Your first novel (Bird Box) had been really succesful. You’ve been published by a giant publishing house, had good reviews, a Bram Stoker Award nomination, a film-rights purchase by Universal Studios and had also been published in other countries, like Brazil. Did you expect such a resonant debut in literature?
JM: It'd be pompous or something like it to say "I knew this was going to happen exactly this way," and yet it's exactly as I visioned it would go. I lived in a delusion for many years, a false reality in which I spoke with an agent who did not exist, argued with imaginary editors, and pulled my own invisible books off the shelves. So, in a sense, I was living this life already, only in an imaginary way. Then, with the book deal, the details of that delusion began to be filled in. Now I knew my agent's name, the sound of my editor's voice, the actual colors of the book spine. So while I didn't anticipate such a "resonant debut," I frolicked in the fantasy version of this reality for many years before it became so.

FT: You've been here in Brazil for the Bienal do Livro, in 2015. How was the interaction with the brazilian fans? 
JM: The interaction with the Brazilian fans and publisher were/are incredible. I kept turning to my fiancee Allison and saying, "Can you believe so many people are this passionate about books?" It was thrilling in a way I couldn't have imagined. And Intrinseca has been brilliant. They're a brilliant collection of brilliant book people. I can't wait to come back.

FT: Do you have any updates on the production of the Bird Box movie? 
JM: No update on the movies. Universal re-upped their option which means the book is still in their hands, but there's no word on it moving any farther along. So... we shall cross our fingers and keep writing books in the meantime.


FT: You'll be publishing two novels this year. One of them is Black Mad Wheel (by the giant publishing house Harper Collins). It's about a band that's conscripted to research about a malevolent sound. Can you tell a bit about this story? What are the similarities and differences between this novel and Bird Box?
JM: Black Mad Wheel is similar to Bird Box in its narrative structure and in the sense that something very scary is going on. But other than that... they are completely unrelated. I'm very excited for Black Mad Wheel to reach Brazil and beyond. It has some real peaks, some real freaky moments, and I'm very proud of her.


FT: The other novel is about a telephatic pig (On this the Day of the Pig) that will be published by Cemetery Dance. How did you come up this idea? 
JM: On this the Day of the Pig is not much like the other two and it's probably the scariest of the three. It's about the day Pearl (the pig) discovers the telepathic power he has, and decides to use it. For this book I had a brief vision of a young man killing a pig in a pen, without wanting to. As if someone else was inside his head, making him do it. Whatever that vision was, I liked it. Then I started to see this other pig in the pen... smiling... and I realized... oh wow, the pig with the grin on its face made this happen. But why? And from there the book exploded.

A COLHEITA FINAL - REVELAÇÃO TENEBROSA, de Antonio Pinto Ferraz: Resenha de livro

A Colheita Final - Revelação Tenebrosa é um livro de terror pouco convencional do ex-seminarista Antonio Pinto Ferraz, publicado em 2013, pela Editora Aquariana. Quando digo pouco convencional é porque ele pouco lembra uma história de terror.

Na verdade, o pequeno romance de Ferraz tem alguns elementos de terror na história, como a presença maligna de Satanás que perpassa todo o livro e um apocalipse macabro. No entanto, esse não é o principal. O autor foca muito mais nos conflitos internos do protagonista do que na história apocalíptica em si.

No livro de Ferraz, o protagonista, um homem solitário e religioso, tem uma experiência sobrenatural com Satanás, que lhe passa uma mensagem. Logo depois do encontro, ele não sabe se realmente tudo aconteceu ou se foi apenas algum delírio. Mas, aos poucos, seu subconsciente vai liberando detalhes da mensagem.



Então, ele percebe o que o príncipe das trevas quer comunicar. Ele não quer mais continuar travando uma batalha com Deus pelo controle da humanidade e desistiu de querer manter a supremacia sobre o mal. Ele simplesmente retirar-se-á de cena antes do juízo final.

No entanto, dentro de poucos meses, ele fará uma colheita final, levando bilhões de almas consigo para o inferno, sem grandes dramas, sem grandes catástrofes. Enfim, ele poupará Deus do trabalho de lutar contra as forças do mal e evitará o apocalipse na Terra.

Isso não se trata de spoiler, porque, na verdade, isso está nas sinopses do livro.

O que Ferraz nos traz em cerca de 120 páginas de história são os conflitos psicológicos do protagonista e muitas referências religiosas e filosóficas. E isso torna a leitura bastante pesada, hermética.

A ideia do livro é muito legal e a premissa bem trabalhada. No entanto, para os fãs do terror, falta aquela atmosfera mais dark ou uma narrativa mais envolvente. O livro é quase um monólogo (em terceira pessoa), com algumas passagens em que o protagonista é entrevistado sobre seu encontro com o diabo. E o fim é macabro, mas de uma forma bem leve.

Fiz buscas pela internet e acredito que esse seja o único livro de Ferraz, então acredito que ele não tenha publicado nada desde 2013. O que é uma pena, porque é um autor de talento, ainda que de um estilo hermético (que não me agrada muito como leitor), e que tem muito a acrescentar à nossa literatura.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

ESTRELA DA MANHÃ, de André Vianco: Resenha de livro

Estrela da Manhã foi o primeiro (e talvez último) livro de André Vianco lançado por seu selo Calíope, publicado sob o guarda-chuva da Giz Editorial. Eu estava há algum tempo querendo comprá-lo, porque me interessei pela história. Devo adiantar, no entanto, que fiquei decepcionado.

A história de Vianco tem um quê de Death Note, um mangá japonês que virou série animada de TV e videogame, sobre um adolescente que encontra um caderno enfeitiçado capaz de matar qualquer pessoa cujo nome seja escrito em suas páginas.

Em Estrela da Manhã, o menino Rafael, de 11 anos, é um saco de pancadas na escola onde estuda. Seu inimigo é o bully Maguila. Órfão de pai, Rafael é um garoto fracote que não tem apoio da mãe ou do irmão nove anos mais velho, Beto, para lidar com a violência.

Cansado de apanhar, ele decide buscar uma ajuda sobrenatural na internet. Em suas buscas pela deep web, Rafael descobre um aplicativo chamado "Pé na Tumba", que lhe permite alugar por alguns dias um protetor espiritual. Entre todas as opções, Rafael descobre um "fantasma" chamado Estrela da Manhã, que promete protegê-lo de sete pessoas diferentes, por sete dias.

Depois de evocar o fantasma, Rafael fala seis nomes, entre eles os de sua mãe e de seu irmão. O problema é que depois de conhecer os nomes, Estrela da Manhã age por conta própria, matando os desafetos do menino.



Quando o primeiro nome dito por Rafael aparece morto, o menino se arrepende de ter contratado os serviços do "Pé na Tumba" e passa todo o livro tentando se livrar do fantasma.

O livro, na verdade, é um terror infanto-juvenil. Tem uma pegada muito parecida com os livros de aventura e suspense da Coleção Vagalume, da Editora Ática. A diferença é que tem algumas cenas com violência excessiva que o aproximam da literatura adulta.

Pelo lado positivo, Estrela da Manhã traz algo que todo livro de Vianco traz: o talento narrativo do autor. Esse é sem dúvida o grande trunfo do autor. Sua narrativa flui bem, é direta, compreensível e não cansa o leitor. Li o livro inteiro, de mais de 270 páginas e letras miúdas, muito rápido.

Mas devo dizer que esse talvez seja o único lado bom do livro. A história, como já disse, é infantil e não convence. Os diálogos são fracos e os personagens, clichês. Como em todos os livros de Vianco que já li, há vários furos. No final, que inclusive é extremamente decepcionante, há um furo colossal (não vou dizer porque será um spoiler imperdoável). Por fim, os nomes do aplicativo e do fantasma foram péssimas escolhas do autor.

Se você nunca leu Vianco, não comece por esse livro. Se você já leu tudo e gosta da maior parte dos livros, certamente gostará desse também. E se você é um leitor exigente de Vianco certamente ficará decepcionado com Estrela da Manhã.


domingo, 8 de janeiro de 2017

NAS MONTANHAS DA LOUCURA, de H.P. Lovecraft: Resenha de livro

Nas Montanhas da Loucura (At the Mountains of Madness) é uma das histórias longas de H.P. Lovecraft, que estão inseridas na mitologia de Cthulhu. Trata-se de uma novela que conta a história de uma expedição científica da fictícia Universidade Miskatonic ao continente antártico, em busca de amostras geológicas e biológicas.

A história foi publicada de forma serializada, em três partes, entre fevereiro e abril de 1936, na revista Astounding Stories. Na verdade, Nas Montanhas da Loucura foi escrita cinco anos antes, mas acabou sendo engavetada depois que a principal compradora de contos de Lovecraft, a revista Weird Tales, recusou o trabalho por ser longo demais.

Ela acabou sendo publicada na Astounding Stories com uma edição mal feita, cheia de cortes, que desagradou bastante Lovecraft. A editora Arkham House acabou republicando a história, baseada no original de Lovecraft, postumamente em uma coletânea em 1939.

O interessante desse conto é que o autor se esmera para explicar a colonização da Terra por seres interestelares, antes do surgimento dos humanos. É bastante elucidativo para quem quer entender os mitos de Cthulhu.

Nas primeiras páginas do livro, a missão da Universidade Miskatonic à Antártida é descrita pelo narrador, o pesquisador William Dyer, com detalhes. Ainda na primeira parte, um grupo de exploradores de vanguarda, liderados por Professor Lake, relata a descoberta de uma cadeia montanhosa mais alta que o Himalaia, cheia de cavernas, onde eles encontram uma espécie desconhecida, com asas, tentáculos e vários olhos.

Os diferentes grupos de pesquisadores, que se separam pelo continente gelado, se locomovem por aviões e se comunicam através de mensagens telegráficas por rádio. Quando o professor Dyer, deixa de receber mensagens do grupo de Lake, ele resolve se deslocar até o acampamento do colega para ver o que aconteceu.

A segunda e terceira partes mostram a exploração de Dyer à cadeia de montanhas descritas por Lake. E essa parte considerável da história é utilizada para explicar como os Anciões (Old Ones) colonizaram a Terra, com a ajuda de seres que eles escravizaram os Shoggoths. E depois, com a chegada da prole de Cthulhu e os MiGo, e como os Anciões foram pouco a pouco sendo exterminados e encurralados no sul do planeta.



O livro tem muito pouca ação, na verdade. É um terror bem ao estilo de Lovecraft, onde o clima de terror vai sendo construído devagar. O que garante o medo são as descrições muito detalhadas de ambientes (subterrâneos em sua maior parte) e de criaturas monstruosas.

Se por um lado, Nas Montanhas da Loucura é ótimo para se conhecer os mitos de Cthulhu, por outro é uma história muito maçante já que Lovecraft exagera em suas descrições e no uso de termos técnicos e geológicos.

Além disso, senti a história pouco convincente. Em poucas horas, dois cientistas (um deles geólogo), percorrem centenas de metros de galerias subterrâneas e, apenas vendo representações pictográficas, conseguem compreender toda a história dos Anciões (algo que, para um arqueólogo levaria meses ou anos). Além disso, em um navio, eles conseguem levar vários aviões para a exploração antártica e conseguem pousar em qualquer lugar (inclusive no meio de uma alta montanha).

HISTÓRICO DE PUBLICAÇÃO:
A história foi publicada originalmente em três partes na revista Astounding Stories, em 1936. Uma versão mais próxima dos manuscritos de Lovecraft foi publicada na coletânea The Outsider and Others, em 1939, pela Arkham House. No Brasil, a história foi publicada em edições da Iluminuras, L&PM e Hedra.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Curta brasileiro CERCADOS PELA MORTE é selecionado para festival Days of the Dead

O curta-metragem brasileiro Cercados pela Morte, de João Vitor Ferian, foi selecionado para a programação cinematográfica da convenção de terror norte-americana Days of the Dead, evento realizado em várias cidades dos Estados Unidos.



O filme brasileiro será exibido na primeira edição da Days of the Dead de 2017, que será realizada entre os dias 3 e 5 de fevereiro, na cidade norte-americana de Atlanta.

Cercados pela Morte, que estreou em novembro de 2016, é ambientado num Brasil pós-apocalíptico, em que mortos são trazidos de volta à vida devido a um suposto vírus. Um grupo de pessoas está confinado em uma casa, tendo lidar com a fome e os zumbis que os cercam.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O MONSTRO E OUTROS CONTOS, de Humberto de Campos: Resenha de livro

O Monstro e Outros Contos, publicado em 1932, pela Editora Marissa, é um livro de contos de terror, do escritor clássico brasileiro Humberto de Campos. Ainda que nem todas as histórias sejam exatamente de terror, a maioria delas têm uma atmosfera sombria e um final macabro, ingredientes que eu considero essenciais para boas histórias de horror.

Pelo menos sete contos podem ser considerados de terror em todos os sentidos que essa palavra pode ter. E todos eles são muito bons. A Noiva é uma delas. Curiosamente, essa não tem um final macabro, como quase todos os contos do livro têm. Trata-se de uma história de fantasma construída sobre um fio de cabelo encontrado em um velho livro.

É interessante porque toda a história se desenrola em meio ao sono do protagonista. Ao encontrar um fio loiro feminino em seu exemplar, o homem começa com alguns devaneios e adormece. Ali, ele encontra o espírito da dona do cabelo e ela lhe conta que foi amaldiçoada por causa da perda desse cabelo. O final, como já dito, é um dos mais leves do livro.

Outro conto macabro que se desenrola no sono do personagem e que também tem um final leve (para os padrões do livro) é A Mina. Ao saber que existia a possibilidade de existir um veio de ouro em seu terreno, um coronel fica feliz e manda abrir um buraco no chão. Quando os empregados finalmente encontram o veio do metal, o coronel tem um pesadelo horrível, em que conversa com a Morte.

Os Olhos que Comem Carne talvez seja o conto mais conhecido dessa faceta macabra de Humberto de Campos. Um certo dia, o escritor Paulo Fernandes acorda e percebe que ficou cego. Desesperado, ele busca ajuda e descobre que existe um especialista alemão, que consegue restaurar a visão das pessoas através de um método cirúrgico inovador.

O final do conto é bem macabro! A cirurgia é mal sucedida e, ao tirar a venda dos olhos, tudo o que Paulo Fernandes consegue enxergar são esqueletos. O processo utilizado pelo médico alemão, que usa a mesma ideia daquela aplicada ao raio-x, faz com que os novos olhos do escritor não enxerguem a carne das pessoas. Desconsolado, o Paulo resolve acabar com aquilo de uma forma bem gore.

O Juramento e Vingança são duas histórias passadas no meio da selva que também tem finais bem sanguinolentos, parecidos com histórias de Eli Roth. Em O Juramento, durante uma conversa de bar, um velho relata um acontecimento de 30 anos atrás, quando uma jovem recusou seu pedido de casamento.

Quis o destino que logo após a recusa do casamento, o velho (que tinha 40 anos na época), a mulher e seu pai estivessem em uma expedição pela floresta (junto com outros dois serviçais do velho) quando foram sequestrados por índios canibais. Ali, naquele momento em que os índios começaram a comer os cativos, o velho sente prazer em ter uma espécie de vingança consumada, mesmo vendo a possibilidade de ele mesmo ser a vítima. O final é de embrulhar o estômago.

Vingança, como o nome já diz, também traz uma vingança. Mas é uma vingança de marido traído. Um seringueiro que vive com sua mulher no meio da mata começa a desconfiar que o dono daquelas terras está tendo um caso com sua mulher. Então, eles combinam de sair numa caçada à noite.

Eles sobem numa árvore e o o seringueiro traído amarra o pé do fazendeiro, empurrando-o galho abaixo. E ele espera que as onças cheguem para devorar o traidor.

Para não ficar sozinha em uma vila abandonada por retirantes, uma doente senhora que não tem qualquer roupa, resolve profanar um túmulo para roubar uma roupa e poder seguir com os outros para fora da vila.




Outras histórias de terror clássico são Retirantes (sobre uma mulher que precisa sair com os retirantes de sua vila mas não tem mais nenhuma peça de roupa e, por isso, resolve profanar um túmulo para conseguir sua vestimenta) e Herodes (sobre um médico que quer todas as mulheres do mundo e resolve eliminar todos os seus potenciais adversários, ou seja, homens, mesmo que tenham acabado de nascer).

Além dessas há muitas histórias que não chegam a ser qualificadas como terror, mas são "ficção sombria" principalmente por causa de seus finais macabros, como uma cabeça degolada que recebe um esperado beijo que não recebeu em vida, uma mãe que se mata para cumprir a promessa de que seu filho voltasse vivo da guerra, etc.

Pelo menos uma história não tem nada de mórbido, que é o conto Jesus, que é uma releitura da infância do Salvador.

Os contos de Humberto de Campos têm uma pegada bem rural e trata do Brasil sertanejo e amazônico, sem precisar recorrer ao tradicional folclore nacional. Seus contos são bem autorais e possuem uma atmosfera pessimista e sombria.